Chamam-lhe
idiota: mas na verdade ele é apenas bobo. Chamam-lhe vagabundo: mas ele é
apenas um pouco louco.
Pouco
ou nada ele tem. Mas em suas mãos está o mundo.
Quem
chama ele de louco, não sabe nada dele, no fundo: a maioria insiste que ele é
idiota, e pronto - todos crêem. Todas estas pessoas da cidade grande, ou mesmo
os campesinos, que acham-se donos da verdade - eles morrem da mente e do
coração, tentando algum dia se dar bem da vida.
O
louco não (vejam que mesmo eu acostumei chamá-lo assim): ele pega sua
trouxinha, e sai andando. Ele tem o universo ali diante de si. A única
diferença (mas que faz toda a diferença) é que ele ainda não sabe que tem o
mundo nas mãos. Esse andarilho... Não é um zero à esquerda. Ele é bondoso até.
É uma coisa tão natural, que nem o melhor ator consegue interpretá-lo bem, se
não for um deles.
Ele
ama os ventos. As críticas vem porque ele nada contra a correnteza, as velas de
seu saveiro sempre o levam a mares nem sempre navegados: ele vive aventura de
piratas, em ilhas desertas, encantadas e cheias tesouros.
Ele
é aquele pequeno sol, que nasce no oeste e se põe no leste, mas tudo sem
querer. Ele não quer desafiar o sol - é inconseqüência mesmo. Você chega na casa
do louco, ele lhe oferece sua própria comida - mas não, ele não é trouxa. Ele
sabe que você está nas mãos dele, porque a vida é dele.
Nosso
louco, bobo, idiota, como o queiram, é um poeta, um artista da vida. Lá no
coração, todo mundo quer ser como ele. Os loucos nascem mais em alguns lugares
do que outros. Comprovei isso com minhas viagens ao interior. São Paulo tem
muita gente sabida e astuta. Elas são as que mais atacam os bobos. Elas acham
que sabem: mas os loucos sabem mais, no fundo, inconscientemente. E eles não
ligam tanto para isso. Não ficam discutindo a bolsa de valores. Nem esperando o
ônibus. Nem reclamando da vida com o taxista. Nem pensando se deixa ou não gorjeta
para o garçom.
Ele
apenas pega sua mala e vai viver loucamente em outros lugares.
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