quinta-feira, 12 de junho de 2014

Sono, apenas

                      Abri os olhos sentindo o suor escorrendo pela testa. Estava realmente abafado sob o manto de lã, macio e protetor. De forma quase irreconhecível pairava o odor leve de mofo - resultante do longo tempo armazenado no armário, retirado apenas devido às notícias da frente fria que se aproximava da capital. Eu, fiel ao noticiário, me precavi.
                        A primeira coisa que notei era o azulão do manto que cobria todo o corpo sem tocar, no entanto, minha face. Imaginei, transpassando-o, o teto do quarto, branco e gélido, tão diferente do ar viciado e quente que fluía dentro daquele pequeno inferno prazeroso e do agrado das gotas de suor que escorriam pelas laterais das orelhas, fazendo cócegas.
                        Meus pés estavam dormentes e deles uma vibração quase que sonora, me dizia para não levantar. As mãos imóveis como pedra estavam praticamente casadas com o lençol - inseparáveis. Por um momento esse peso me causou a impressão da morte.
                        Como saberia? A sensação do ar morno, as cócegas leves, pés dormentes e gelados, os olhos fixos e inanes, para cima apontando... Seria possível? Que tranquilizadora foi a sensação de meu coração batendo. Cada batida, intensa e mórbida, era também dolorosa e demandava um grande esforço e força de vontade para existir.
                        Mais calmo, ficava feliz a cada gota de sangue que circulava e causava leves arrepios no couro cabeludo, na jugular, e pontadas na nuca (estas seriam ignoradas caso estivesse num instante qualquer de consciência). Já que não morte, talvez fosse um sonho.
                        Fechei os olhos desejando fortemente que minhas mãos se movessem. As batidas, entretanto, eram resolutas, ritmadas e inacessíveis a qualquer mudança. Só de saber da vida, senti um alívio, e me entreguei, a mais alguns instantes de sono, julgando-me um merecedor pela sobrevivência num incidente como este. Me permitirei alguns minutos mais antes que o despertador toque. E a nova questão existencial era "quanto tempo ainda me resta?".

                        O despertador toca.

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