Abri os olhos sentindo o suor
escorrendo pela testa. Estava realmente abafado sob o manto de lã, macio e
protetor. De forma quase irreconhecível pairava o odor leve de mofo -
resultante do longo tempo armazenado no armário, retirado apenas devido às
notícias da frente fria que se aproximava da capital. Eu, fiel ao noticiário,
me precavi.
A primeira coisa que
notei era o azulão do manto que cobria todo o corpo sem tocar, no entanto,
minha face. Imaginei, transpassando-o, o teto do quarto, branco e gélido, tão
diferente do ar viciado e quente que fluía dentro daquele pequeno inferno
prazeroso e do agrado das gotas de suor que escorriam pelas laterais das
orelhas, fazendo cócegas.
Meus pés estavam
dormentes e deles uma vibração quase que sonora, me dizia para não levantar. As
mãos imóveis como pedra estavam praticamente casadas com o lençol -
inseparáveis. Por um momento esse peso me causou a impressão da morte.
Como saberia? A sensação
do ar morno, as cócegas leves, pés dormentes e gelados, os olhos fixos e inanes,
para cima apontando... Seria possível? Que tranquilizadora foi a sensação de
meu coração batendo. Cada batida, intensa e mórbida, era também dolorosa e
demandava um grande esforço e força de vontade para existir.
Mais calmo, ficava feliz
a cada gota de sangue que circulava e causava leves arrepios no couro cabeludo,
na jugular, e pontadas na nuca (estas seriam ignoradas caso estivesse num
instante qualquer de consciência). Já que não morte, talvez fosse um sonho.
Fechei os olhos
desejando fortemente que minhas mãos se movessem. As batidas, entretanto, eram
resolutas, ritmadas e inacessíveis a qualquer mudança. Só de saber da vida, senti
um alívio, e me entreguei, a mais alguns instantes de sono, julgando-me um
merecedor pela sobrevivência num incidente como este. Me permitirei alguns
minutos mais antes que o despertador toque. E a nova questão existencial era
"quanto tempo ainda me resta?".
O despertador toca.
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